Largo do Machado

Largo do Machado foto do início do século XX

Largo do Machado foto do início do século XX

Largo do Machado foto de Augusto Malta fotógrafo oficial da prefeitura carioca entre 1903 e 1936

Largo do Machado foto de Augusto Malta fotógrafo oficial da prefeitura carioca entre 1903 e 1936

 

O atual Largo do Machado, por ocasião da fundação da cidade era um terreno como um pântano, por esse motivo, era chamado “Lago do Suruí” (um molusco), depois “Lagoa da Carioca“, aterrado, ficou conhecido como “Campo das Pitangueiras“, depois “Campo das Laranjeiras“, mais tarde, “Campo” ou “Largodo Machado.

     

Em 1843, quando foi criada a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória, passou a chamar-se “Praça da Glória.

Em 1880 por uma portaria municipal, passou a chamar-se “Praça Duque de Caxias” (após a morte do Patrono do Exército Brasileiro). Voltou tempos mais tarde a chamar-se oficialmente Largo do Machado, novamente voltou a ser chamada “Praça Duque de Caxias” e só para não perder o hábito, voltou a chamar-se Largo do Machado.

Antes de ser aterrado, naquela região (até a altura onde se encontra hoje a Praça José de Alencar), se dividia o Rio Carioca, em um braço que era o Rio do Catete.

Em 1628, já havia um morador (provavelmente o primeiro morador do largo), era o Padre Cosme Ramos de Moraes.

Gostaria de esclarecer uma dúvida muito comum; o largo não tem esse nome devido ao escritor Machado de Assis; muitas pessoas hoje em dia ainda afirmam isso, bem como alguns autores (alguns muito conceituados), que escrevem sobre a história dos bairros e ruas do Rio de Janeiro. Em 1843, quando o largo mudou de “Machado“, para “Praça da Glória” nome esse que “não pegou“, Machado de Assis tinha apenas quatro anos de idade, pois ele nasceu em 1839, e como vimos o largo já tinha esse nome muito tempo antes. Portanto, não há a menor possibilidade, ainda que o fantástico escritor tenha residido ali perto na Rua do Catete 206 antes de ter se mudado para o Bairro do Cosme Velho, pois que seu endereço mais famoso foi a Rua Cosme Velho, 18, endereço esse que também não fica longe do largo.

Desde que ficou conhecido como Largo do Machado pela primeira vez, nenhuma mudança de nome “vingou”, sempre sendo reconhecido pela população como Largo do Machado. É espantoso, pois o nome é muito pobre em suas origens, a versão mais aceita hoje em dia para o nome do local é que lá existiu um açougue que exibia na sua fachada um enorme machado de madeira. Existe uma outra versão, a de que um tropeiro de mulas de sobrenome Machado (Joaquim Machado de Abreu), que vinha regularmente trocar e vender suas mercadorias apeava suas mulas no largo, e daí passaram a identificar o local com seu nome. Esta versão, não tem nenhum fundamento reconhecido, apenas é uma estória comentada pelos mais velhos no Sul de Minas Gerais, notadamente na Cidade de Pedralva. (eu teria todo o interesse em acreditar nesta versão, pois minha filha é descendente do referido tropeiro).

Mas o grande impulso para o progresso e fama do referido largo, foi sem dúvida o religioso.

     Dona Carlota Joaquina (foto à esquerda), esposa de Dom João VI, não vivia com seu marido no Paço Real (mais tarde denominado Paço Imperial, hoje Praça XV),

Praça XV Foto do início do século XX

Praça XV Foto do início do século XX

 

preferindo viver em uma chácara onde hoje é a esquina da Rua Marques de Abrantes e Praia de Botafogo, chamava-se “Chácara de Botafogo“. A Chácara de Botafogo pertencia ao Sr. José Fernandes, filho do famoso contratador de diamantes João Fernandes e da mais famosa ainda a ex-escrava Chica da Silva. (veja a biografia de todos esses personagens na página inicial deste site).

Na foto abaixo de 1893, você vê onde ficava aproximadamente a Chácara de Botafogo.

Praia de Botafogo em 1893

Praia de Botafogo em 1893

 

Havia desde 1720 uma pequena capela no início da Rua das Laranjeiras (Nossa Senhora dos Prazeres), Dona Carlota mandou reformá-la em 1818 e passou a freqüentá-la; com a sistemática passagem de sua luxuosa carruagem pelo local passou a despertar interesse pela região.

Acontece que o Bairro do Catete pertencia a Freguesia da Igreja de São José, que fica na atual Rua 1º de Março (antiga Rua Direita), esta freguesia era muito grande, se ocupando de todo o centro da cidade e todas as regiões que se estendiam até o atual Bairro da Gávea. Portanto em 1834 por decreto imperial foi criada a Freguesia de Nossa Senhora da Glória, que compreendia os bairros: da Lapa, Glória, Santa Teresa, Catete, Laranjeiras e Botafogo. Agora só faltava uma igreja para a nova paróquia.

Na Rua Pereira da Silva (João Manuel Pereira da Silva, político, advogado, historiador e literato acadêmico imortal da A.B.L., nasceu em Nova Iguaçu – RJ – Machado de Assis faz referência a ele em um de seus livros), vivia o Sargento – Mor Antonio Joaquim Pereira Velasco (ele também era Juiz de Paz), que junto com outros nomes importantes da época fundaram a Irmandade SS. Sacramento de Nossa Senhora da Glória; em sua casa havia uma capela particular que serviu de sede provisória para a Matriz da nova paróquia.

Esta escolha foi feita em virtude das terras onde ficava a capela da Rua das Laranjeiras terem sido executadas pelo Banco do Brasil, devido a dívidas da Rainha de Portugal Dona Maria II, e foi arrematada pelo Sr. Antonio José de Castro, a Irmandade da Glória comprou as terras e levou em 1835 as imagens para a Sede Provisória da Irmandade.

Em 1837 a Mesa Administrativa da Congregação da Irmandade começou a estudar o local para a construção do templo definitivo, e assim foi decidido que seria no terreno de propriedade do Sr. Domingos Carvalho de Sá, situado no “Largo do Campo do Machado”, entre as Ruas das Laranjeiras e a atual Rua Gago Coutinho (Carlos Viegas Gago Coutinho, geógrafo, aviador, almirante; esta rua na época chamava-se Rua Carvalho de Sá), foi incluído um pedaço de terra que pertencia ao Sr. Francisco Marques de Lisboa (Capitão de Milícias no Rio Grande do Sul, pai do Almirante Tamandaré); todos os proprietários concordaram com a seção das terras para a Irmandade, com a condição que na nova igreja a ser construída no local, não houvesse sepultamentos (hábito comum nas igrejas do Brasil na época), desta forma, em 1838 os terrenos passaram a ser da Irmandade.

No dia 17 de julho de 1842 aconteceu a cerimônia de lançamento da pedra fundamental da construção, que contou com a presença do Imperador e sua família. Foi lacrada numa caixa de chumbo uma medalha de prata com a face do Imperador, moedas de ouro, prata e cobre correntes na época e um pergaminho onde constava o seguinte:

“Debaixo da proteção divina os piedosos fregueses da freguesia da glória se reunirão para levantar esta freguesia em honra da beatíssima Virgem Maria, debaixo do especioso título da Senhora da Glória, precedendo doações públicas e particulares. A pedra fundamental deste templo sendo conduzida pelo Senhor dom Pedro II, Imperador Constitucional do Brasil e Defensor Perpétuo do Brasil, e primeiramente benta conforme o rito pelo Exmo. E Rem. Bispo Capelão Mor dom Manoel do Monte Rodrigues de Araújo, foi lançada no lugar do seu destino pelas mãos do sobredito senhor para glória de Deus e da Virgem Maria, servindo de provedor da dita Freguesia Antonio Joaquim Pereira de Velasco, no dia 17 de julho de 1842″.

     A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória no Largo do Machado, lembra a igreja de St. Martin em Londres, o projeto básico foi realizado pelos engenheiros Keller e Riviére.

A 4 de abril de 1874, foi fundado o Café Lamas no Largo do Machado (Francisco Lamas, seu 1º dono o batizou como Café Central) um dos mais tradicionais restaurantes do Rio de Janeiro, muito freqüentado por estudantes, artistas, políticos e jornalistas. Infelizmente (em minha opinião), mudou-se para a Rua Marquês de Abrantes, em 6 de abril de 1976, por causa da construção do Metrô. No Lamas a freqüência de ilustres era constante, foram clientes da casa entre muitos: Sérgio Buarque de Holanda, Afonso Arinos, Edmundo da Luz Pinto, Gilberto Amado, André Dreyfus, Hermann Palmeira, Fernando Nabuco de Abreu, Cândido Portinari, então um estudante obscuro da Escola de Belas Artes; poderia citar ainda Ruy Barbosa, Machado de Assis, Olavo Bilac, Monteiro Lobato, Emilio de Meneses, João do Rio e Oscar Niemeyer, sem contar que Getúlio Vargas, que muitas vezes tomava o seu “chá das 5″ no Lamas.

Foi inaugurado em 1874 a pedido de Dom Pedro II, o Colégio Amaro Cavalcanti (foto abaixo), teriam oferecido em sua homenagem, uma estátua, o imperador então pediu que se fosse possível ao invés da estátua, preferiria um colégio. Na fachada, ao alto, estão quatro estátuas que representam: a Ciência a Agricultura, a Arte e a Indústria todas de Mathurin Moreau.

Colégio Amaro Cavalcanti

Colégio Amaro Cavalcanti

 

Imagem gentilmente cedida pelo internauta Dercio Rocha

     Amaro Cavalcanti (Amaro Cavalcanti Soares de Brito, 1851-1922), nasceu no município de Caicó, comarca do Seridó - RN. Formou-se em Direito pela Albany Law School, de Nova Iorque (EUA), foi prefeito do Distrito Federal (RJ), em decreto de 12 de janeiro de 1917; tomou posse a 15 e foi exonerado, a pedido, em 15 de novembro de 1918; Ministro do Supremo Tribunal Federal, em quanto prefeito, baixou um decreto em 1917, restringindo o banho de mar nas praias do Leme e Copacabana:

Decreto nº 1.143, de 1º de Maio de 1917.

Dá regulamento para o uso do banho de mar, nas praias do Leme e Copacabana.

O Prefeito do Districto Federal: (RJ a época n.a.)

Usando da autorização contida no decreto n. 1.551, de 26 de Novembro de 1913, decreta:

Art. 1.º O banho de mar só será permittido, de 1 de Abril a 30 de Novembro, das 6 às 9 horas e das 16 às 18 horas; e de 1 de Dezembro a 31 Março, das 5 às 8 horas; e das 17 às 19.

Paragrapho único. Será ampliado por mais uma hora, pela manhã, o tempo do banho, nos domingos e dias feriados.

Art. 2.º Os locaes destinados ao banho serão assignalados por meio de mastros especiaes, no perimetro determinado por duas balisas no sentido da praia e para o mar, antes da arrebentação.

Art. 3.º As pessoas que fizerem uso do banho de mar devem apresentar-se com vestuário apropriado, guardando a necessária decência e compostura, de accôrdo com as exigências da autoridade respectiva.

Art. 4.º As condições do tempo e o estado do mar serão indicados por signaes convencionaes installados nos mastros, de que trata o art. 2º.

Paragrapho único. A cor branca facultará o uso do banho e a vermelha indicará a sua prohibição.

Art. 5.º São expressamente prohibidos quaesquer ruidos e vozerias na praia ou no mar, durante todo o período do banho.

Art. 6.º Será punido com multa de 20$000 todo aquelle que infringir as disposições estabelecidas neste regulamento, e, na falta de pagamento, com cinco dias de prisão.

Art. 7.º Os detalhes de serviço, assim como avisos e demais providencias complementares, serão affixados nos mastros para conhecimentos dos banhistas.

Art. 8.º Fora dos locaes indicados e convenientemente assignalados, ficam em pleno vigor e serão rigorosamente observadas as disposições do art. 3º e seus paragraphos do decreto ora regulamentado.

Districto Federal, 1 de Maio de 1917; 29º da República.

Amaro Cavalcanti.

(Procurei ao máximo manter a grafia da época, salvo uma ou outra palavra que atualizei para a grafia dos dias atuais por questões técnicas n.a.)

     Apesar de ser um intelectual e um dos grandes representantes do pensamento industrialista do período algumas das medidas adotadas por Amaro Cavalcanti foram tão impopulares que seu nome virou letra de um “Tango Carnavalesco” em 1918 de nome “Seu amaro quer…” (Amaro com letra minúscula mesmo). A composição de F. Soriano Robert além de ser uma música carnavalesca, fazia propaganda de um “remédio” de nome Vermutim, na verdade um tônico a base de vermute.

No dia 25 de fevereiro de 1883, ao meio dia de um domingo carioca, distintos senhores do Império se reuniram para, em apenas meia hora, fundar a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro (atual Sociedade Brasileira de Geografia), que passou a funcionar dentro das dependências do Colégio Amaro Cavalcanti. Nesta época, o largo chamava-se Praça Duque de Caxias; estavam presentes na assembléia de fundação da sociedade os Srs. Manoel Francisco Correia, Henrique Beaurepaire Rohan, Alexandre Affonso do Carvalho, Alfredo d?Escragnole Taunay, Barão de São Francisco, Barão de Tefé, Luiz Rafael Vieira Souto, Fernando Mendes de Almeida, André Gustavo Paulo de Frontim, comendadores, tenentes, desembargadores, sob a presidência de Manoel Francisco Correia.

Em 15/08/1899 foi inaugurado o Panteon de Duque de Caxias no Largo do Machado tendo sido transferido para frente do Ministério do Exército na Avenida Presidente Vargas na mesma época que o edifício ficou pronto.

Conta-se um “causo” que teria acontecido no princípio do século XX, pelo poeta e jornalista Olavo Bilac (1865-1918), ao cruzar o Largo do Machado, viu um ladrão roubando o relógio de uma mulher. Deteve o meliante e levou-o para a delegacia da Rua do Catete esquina com Rua Pedro Américo.

Em 1910 o poeta paraibano Augusto dos anjos (Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos), com 26 anos chega ao Rio de Janeiro e hospeda-se em uma pensão no Largo do Machado número 37. (logo a seguir muda-se para a Avenida Central, atual Avenida Rio Branco.

No início do século XX, foi fundado o Rancho Flor do Abacate, e teve sua sede no Largo do Machado, mais tarde rivalizando com outro rancho o Ameno Resedá, que foi fundado na Rua do Catete, próximo a Rua almirante Tamandaré e mais tarde passou a ter sede na Rua Correa Dutra, cujo prédio era carinhosamente chamado de “A Jarra” (resedá é o nome de uma flor).

Cine São Luiz com o filme Rebeldia Indomável

Cine São Luiz com o filme Rebeldia Indomável

Em frente ao Largo do Machado, no atual número 311 da Rua do Catete, foi inaugurado em dezembro de 1937 o belíssimo e austero Cine São Luiz.

Quer saber qual era o filme?

     O Príncipe e o Mendigo com Errol Flynn.

Este cinema foi demolido, e em seu lugar foi construído uma galeria na qual em seu 2º piso funcionam 4 salas de projeção de filmes em substituição ao antigo Cinema São Luiz.

Em 1969, durante as negociações para a libertação do Embaixador Americano Burke Elbrick, a caixa de donativos da Igreja Nossa Senhora da Glória, foi usada para que ali fosse deixada mensagem contendo os bilhetes do embaixador para a sua mulher.

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