Chica da Silva (Xica da Silva)

Nome: Francisca da Silva Oliveira

Local e data de nascimento: Distrito de Milho Verde – (Serro) pertencente a época ao Arraial do Tijuco ou “Tejuco” onde hoje se situa a Cidade de Diamantina no Estado de Minas Gerais (Brasil) ano não disponível, porém provavelmente nasceu em 1732.

Local e data da Morte: Na tumba de número 16, da Igreja da Irmandade Ordem 3ª de São Francisco de AssisArraial do Tijuco – MG - (atual Cidade de Diamantina) a 15 de fevereiro de 1792. O Site JusBrasil afirma que ela morreu em 1796 no Arraial do Tejuco, onde viveu.

Obs.: Milho Verde, ficava a meio caminho entre o Arraial do Tijuco (atual Diamantina) e a Vila do Príncipe (hoje Cidade do Serro).

(as datas desta biografia não são confiáveis n.a.)

     Francisca da Silva era filha do relacionamento extra-conjugal do português Antônio Caetano de Sá e da escrava baiana, Maria da Costa. É possível que essa informação seja incorreta, talvez Maria da Costa tenha nascido na África, na Costa da Mina. (A chamada Costa da Mina era um território africano à beira do Oceano Atlântico no golfo da Guiné. Foi ocupado pelos ingleses que ali estabeleceram importantes entrepostos comerciais, que passaram a ser defendidas pelas guarnições das fortalezas que antes pertenciam a Portugal, dentre as quais as de São João Batista de Ajudá).

Muitos escravos da região da Costa da Mina na África, foram traficados para Minas Gerais pelo fato destes escravos a princípio terem experiência em mineração, porém em todo Brasil, poucos foram os escravos vindos desta região africana em particular.

Foi escrava do Sargento-Mor Manoel Pires Sardinha (um Sargento – Mor era responsável por dois grupos de 20 arqueiros cada um; muito provavelmente era apenas o nome da patente militar, pois não haviam mais arqueiros regulares no exército português; mal comparando seria como hoje o militar ter a patente de Capitão de Corveta e não comandar corveta alguma) de quem tornou-se amante – alguns historiadores se referem ao português Manoel Sardinha como ele sendo também médico além de possuir lavoura no Tijuco. Neste relacionamento teve dois filhos: Plácido Pires Sardinha, que mais tarde se formou em engenharia em Coimbra e Simão Pires Sardinha, também educado na Europa que mais tarde ocupou vários cargos no alto escalão da corte e existem histórias sem comprovação de que ele teria feito parte da inconfidência mineira. (muitos autores não fazem referência ao filho Plácido).

     Quando Simão nasceu em 1751, ela estava na casa dos 19 anos e o Sargento Sardinha já era sexagenário. No registro de batismo de Simão Pires Sardinha, seu pai não assumiu a paternidade, porém lhe deu alforria e mais tarde em testamento reconheceu o filho como um de seus herdeiros. (ele tinha dois outros filhos “oficiais”).

Depois ela veio a ser escrava do Padre Rolin (José da Silva Oliveira), foi por essa época que ela conheceu o Contratador de Diamantes João Fernandes de Oliveira (alguns autores incistem na tese de que a seu pedido foi libertada pelo padre, mas documentos descobertos provam que ela foi alforriada por João Fernandes.

A primeira vez que a história de Chica da Silva veio ao grande público foi através de um livro de 1868 (76 anos após a sua morte), “Memórias do Distrito Diamantino” escrito pelo advogado Joaquim Felício dos Santos; antes deste livro a vida de Chica sempre foi desconhecida e vivia mais como lenda ou histórias da esfera regional mineira. O livro faz uma descrição por demais negativa de Chica, por exemplo; ele a descreve desta maneira “uma mulata alta, corpulenta, boçal e careca”!

Este mesmo Joaquim Felício dos Santos, que como mencionei, era advogado, em 1860 se torna o representante legal dos herdeiros de Chica da Silva na ação de posse dos bens no Brasil do Desembargador João Fernandes. Com um pouco de imaginação se pode presumir que em havendo algum descontentamento por parte de algum dos filhos de Chica e de João Fernandes, ele poderia por raiva ou despeito escrever coisas absurdas a respeito da mãe deles, pode ser apenas uma suposição, mas bem serve para explicar o porque dele escrever coisas tão negativas sobre a ex-escrava.

Lendo o livro se tem a impressão de tendencialismo, inveja, “pinimba” ou coisa que o valha. Alguns estudiosos afirmaram que quando José Felício escreveu seu livro ainda haviam pessoas vivas que conheceram Chica da Silva… É possível? Sim. É provável? Não. Como disse ele escreveu o livro 76 anos após a morte da escrava; mas foi baseado nisto que afirma-se que as descrições físicas dela não poderiam estar erradas.

Posteriormente em 1924, a escritora Nazaré Meneses, autora de notas sobre a nova edição do livro de Felício dos Santos, diz que não poderia ser ela horrenda, visto ter agradado tanto o Contratador de Diamantes João Fernandes, jovem, bonito e rico.

O jornalista Antônio Torres escreveu apontamentos sobre Diamantina (antigo Arraial do Tijuco ou “Tejuco“) no início do século XX , deixou registrado em seus escritos que o cadáver de Chica da Silva foi descoberto alguns anos depois de sua morte intacto, conservando ainda “a pele seca e negra”; quem via ficava horrorizado segundo Torres; na verdade foi a partir destes escritos de Antônio Torres, que a vida de Chica da Silva despertou interesse não só do público em geral como também de historiadores, organizadores de roteiros turísticos, romancistas e escritores de peças de teatro, porém o que poucos prestam a atenção, é que Antonio Torres escrevia basicamente sobre “tradições orais”, “dizem que”, “contam que” no entanto se não fosse por estes relatos você provavelmente não estaria lendo agora esta biografia.

Daí pra frente virou festa, cada um mostrando uma Chica de acordo com suas fantasias e imaginações; de uma maneira geral nenhum destes trabalhos foram baseados em pesquisas históricas consistentes.

No ano de 1720 nasce João Fernandes seu futuro marido.

A vida de Chica da Silva pode ser comparada a de qualquer conto de fadas europeu, como a estória da Gata Borralheira por exemplo, só que no caso de Francisca da Silva, foi real, aconteceu de verdade, ainda que sua história tenha inspirado, livros e filmes ficcionais.

Em 1753 João Fernandes chega ao Arraial do Tijuco.

No mesmo ano de 1753, Chica da Silva foi comprada pelo desembargador da Coroa João Fernandes de Oliveira.

Negra, escrava, semi-analfabeta, tinha tudo para na sua época ter vivido no mais completo anonimato, conheceu o contratador de diamantes, o rico Comendador João Fernandes de Oliveira lá mesmo onde nasceu no Arraial do Tijuco (Ty-Yuc – liquido podre, lama, brejo), a atual Cidade de Diamantina em Minas Gerais.

Alguns a descrevem linda e sensual, e com essa sensualidade teria conseguido tudo o que queria do comendador; outros, a descrevem como feia e sem atributos físicos, porém inteligente e ardilosa.

Como eu disse, o contratador a libertou. Qual o motivo? Por ela ser feia e sem graça?

Me parece meio sem sentido.

Em 1754 atravéz de Carta de Alforria liberta pelo Contratador João Fernandes.

Ela, podia não ser mais escrava, mas o comendador era um homem poderoso, poderia ter a escrava que quisesse na cama e obriga-la a fazer tudo o que quisesse na alcova.

Ao que parece, além de bela, Chica deveria ter certos apelos sexuais talvez únicos para tal poder de sedução junto ao contratador. Isso sem contar que ela já havia sido “mulher” de outro branco com o qual tivera dois filhos.

Desde 1754, Chica da Silva passou a se chamar Francisca da Silva de Oliveira.

Com isso, Francisca se tornou uma pessoa poderosa, autoritária inclusive, recebendo o apelido de “Chica Mandona” ou “Chica que Manda“. Ela chegou a ser senhora de escravos! O contratador satisfazia os seus mínimos desejos e vontades; só para se ter uma idéia ele mandou construir a famosa Chácara de Chica da Silva no Bairro da Palha, também chamada de palácio, onde havia um jardim com plantas exóticas vindas da Europa e cascatas artificiais, além de um suntuoso teatro onde atores contratados na corte e no Rio de Janeiro (note que nessa época a corte ainda não havia sido transferida para o Rio de Janeiro), vinham encenar as peças mais famosas da época.

Alguns dos córregos e riachos do sítio foram represados no intuito de formar um lago artificial para que Chica pudesse navegar em uma réplica de navio feito só para que ela tivesse a sensação de navegar, visto que ela nunca havia conhecido o mar. (Existe muita controvérsia a respeito deste episódio, muitos afirmam que isso nuca ocorreu).

A Ordem Terceira do Carmo havia começado a empreitada de construir uma nova igreja, a Igreja Nossa Senhora do Carmo. O Sr. João Fernandes, se indispôs com outros membros da irmandade, devido ele ter escolhido um terreno próximo a “Casa do Contrato“, onde trabalhava, dessa forma ele acabou assumindo sozinho a construção.

Existe uma curiosidade sobre essa construção; a torre da igreja foi construída nos fundos e não na frente como é de praxe, uns dizem que era uma tentativa de burlar uma lei que proibia os negros de passarem além da torre da igreja ao entrarem para assistir as missas, desta forma, como a torre fica ao fundo, Chica da Silva poderia entrar em qualquer parte do templo; outros afirmam que Francisca teria pedido ao seu homem, que construísse a torre ao fundo para não ouvir o badalo do sino, eu fico com a primeira opção, pois o som do sino é ouvido em quase todo o centro da Cidade de Diamantina (ao menos quando eu estive lá na década de 1970 era assim), e a casa onde os dois moravam fica bem próximo da igreja, ou seja, ela ouviria o barulho de qualquer forma, não seria o fato do referido sino estar a frente ou ao fundo que mudaria esse fato.

Ela gostava de andar rodeada de escravas e possuía sua própria capela particular; a Capela de Santa Quitéria que não mais existe, algo muito incomum naqueles tempos.

Teve 13 filhos com João Fernandes (alguns historiadores se referem apenas a 12 filhos; na verdade só foram encontrados documentos referentes a 11), todos foram reconhecidos por ele inclusive seus dois enteados tiveram a melhor educação da época.

  1. Francisca de Paula – abril de 1755 (data de batismo), o padrinho foi o antigo proprietário de Francisca o Sargento – Mor Manuel Pires Sardinha.
  2. João Fernandes – 1756.
  3. Rita – 1757.
  4. Joaquim – 1759.
  5. Antonio Caetano -1761.
  6. Ana Quitéria- 1762.
  7. Helena – 1763.
  8. Luiza – 1764.
  9. Antônia – 1765 (data provável).
  10. Maria – 1766.
  11. Rita Quitéria - 1767.
  12. Mariana – 1769.
  13. José Agostinho Fernandes – 1770, este morou no Rio de Janeiro, e por ocasião da vinda da família Real portuguesa para o Brasil, teve sua linda chácara desapropriada, para que Dona Carlota Joaquina fizesse dela sua residência, esta chácara ficou conhecida como “Chácara de Botafogo” ou “Palácio de Botafogo“, se localizava no final da “Estrada do Catete” esquina com Praia de Botafogo. (leia maiores detalhes em “Pequena História do Catete” ou na biografia de Carlota Joaquina, ambas a partir da página inicial deste site).

Em 1767 enviou para o Educandário Macaúbas as filhas mais velhas, Francisca de Paula (com 12 anos), Rita Quitéria (com 10 anos) e Ana Quitéria (com 5 anos) por cada matricula, ela pagou o dote de 900 mil-réis em barras de ouro e mais uma anuidade para despesas de 60 mil-réis. Cada uma de suas filhas levou uma escrava e as três contavam com mais um casal de escravos que ficavam do lado de fora do educandário.

Em 1770, morre seu “sogro” em Portugal.

Também em 1770 João Fernandes retorna a Portugal para não mais voltar.

As outras 4 filhas do casal: Helena, Luiza, Maria e Quitéria também foram para o educandário, não sei os anos de matrícula de cada uma, porém em 1780 todas já estavam lá; foi neste ano que Chica da Silva retirou todas as suas filhas do internato e as trouxe para viver com ela, provavelmente em função da morte do comendador no ano anterior. Também pode ter sido pelo motivo dela ter perdido a confiança na instituição, pois sabe-se que neste ano houve alterações nos regulamentos do educandário feitas pelo Bispo Domingos da Encarnação Pontevel visando “moralizar” o recolhimento.

Os quatro meninos, inclusive Simão (enteado de João Fernandes), foram educados na Europa. João, o filho mais velho do casal, estudou em Coimbra e tornou-se herdeiro do pai. Simão concluiu seus estudos em Roma, e se tornou almoxarife do reino.

Cada filha recebeu uma fazenda de herança e várias delas realizaram bons casamentos.

Em 1779 falece João Fernandes em sua casa de Lisboa.

     Francisca da Silva Oliveira pertenceu as mais importantes irmandades e confrarias da região na época, irmandades estas tanto de “brancos” como de “negros”: Irmandade do Santíssimo (Tejuco, para brancos), Irmandade de São Miguel e Almas (para brancos), Irmandade Nossa Senhora do Carmo (Vila do Príncipe, para brancos), Irmandade de São Francisco (Tejuco, para brancos), Irmandade Terra Santa (para brancos), Irmandade das Mercês (para mulatos), e a Irmandade Nossa Senhora do Rosário, nesta, só para negros ocupou vários cargos importantes, inclusive duas vezes como juíza e uma vez como irmã da mesa diretora.

Morreu em Diamantina, provavelmente sem a pompa a que estava acostumada, mas certamente com uma vida muito confortável, inclusive deixando um polpudo testamento para seus inúmeros filhos. Está sepultada na Igreja da Irmandade  Ordem 3ª de São Francisco de Assis (foto abaixo de Júnia Furtado), onde duas de suas filhas também foram sepultadas anos mais tarde.

Em maio de 2009 o Projeto Sempre Memória do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) expôs a Carta de Alforria de Chica da Silva. O documento foi exposto no Palácio da Justiça de Minas Gerais (Av. Afonso Pena, 1420, Centro, Belo Horizonte). Depois ele percorreu várias outras instituições sempre exposto ao público.

Igreja da Irmandade Ordem 3ª de São Francisco de Assis foto de Júnia Furtado

Igreja da Irmandade Ordem 3ª de São Francisco de Assis foto de Júnia Furtado

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