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Nome: Carlota
Joaquina de Bourbon e Bragança.
Local
e data de nascimento: Palácio de Aranjuez - Madrid a 25 Abril de 1775.
Local
e data da Morte: Queluz - Lisboa a 7 Janeiro 1830.
Dona
Carlota Joaquina era filha primogênita (primogênita sim, porém
sua mãe sofreu vários abortos) do rei
Carlos IV de
Espanha e da rainha Dona Maria Luísa Teresa de Parma
e Bourbon. Dizem, que logo após o seu nascimento, Dona Luiza de
Parma sua mãe, a levou na presença do famoso místico Conde de
Sant Germant para que ele lesse na mão da pequenina Carlota
o seu futuro, o seu destino, teria dito Sant Germant:
"...Senhora, vossa filha será rainha sem coroa, será mulher sem
amor e será mártir, martirizando os outros...". Se é verdade que
isso aconteceu, foi um resumo fantástico do que seria a vida de Dona
Carlota Joaquina. Se casou em 8 de Maio, tendo 10 anos de idade; casou por procuração, com Dom João
VI; uma união simplesmente por interesse de negócios entre os dois
países; ele, contava com 18 anos.
O
Casamento.
Para
realizar o projeto chamado de Floridablanca pelo qual se conseguiria uma aliança
duradoura entre Espanha e Portugal foi assinado um
tratado no qual estabelecia dois casamentos entre infantes espanhóis e
portugueses; a Espanha daria ao príncipe Dom João a
princesinha Carlota; e Portugal daria ao Príncipe Dom
Gabriel, filho do Rei Carlos III, Dona Mariana Vitória
irmã de Dom João; na época destes acordos Dona Carlota tinha
8 anos de idade e Dona Mariana tinha 15; esses casamentos levaram
dois anos para se consumarem; só ocorreram após a assinatura do
"tratado" entre a Rainha Maria Vitória de Portugal
e o Rei Carlos III de Espanha. Em 17 de março de 1785 o
Conde de Louriçal que era ministro português na corte de
Madrid pediu a mão de Dona Carlota para casamento em nome de
Dom João; e o Conde Fernan Nunes embaixador espanhol em Lisboa
pediu a mão da infanta portuguesa Dona Mariana Vitória em nome
do príncipe Dom Gabriel. Carlota teve que submeter-se aos chamados
"exames públicos" para o acordo matrimonial, quando respondeu
durante 4 dias, cerca de uma hora por dia a perguntas sobre religião,
geografia, história, gramática, língua portuguesa, (não se esqueça que
ela era espanhola) espanhol e francês; as apresentações dos dois casais
aconteceram
no dia 8 de maio de 1775 na cidade portuguesa de Vila Viçosa
na fronteira com a Espanha. No dia seguinte, o casamento foi
aceito pela Igreja através da benção dada por um cardeal. Os festejos
duraram quatro dias, durante o dia se realizavam torneios e touradas,
e a noite haviam reuniões musicais que na época se chamavam
"serenins", bailes e representações líricas. Dentro desses
festejos, durante uma das noites de núpcias, a princesa Carlota agrediu o
esposo, mordeu-lhe fortemente a orelha e
atirou um castiçal no rosto do marido. Depois desse episódio, foi
feito um ato adicional ao contrato de casamento, permitindo que Dona
Carlota pudesse ter sua primeira relação sexual com o marido aos
14 anos podendo voltar atrás caso assim ela quisesse ou seja: se ela
quisesse fazer sexo antes dos 14 anos, poderia. Um certo Padre
José Agostinho de Macedo, imprimiu uns folhetos contando esse caso
da noite de núpcias de forma brincalhona e sarcástica com o titulo
"O gato que cheirou e não comeu" (o texto é de um
mau gosto terrível é tão grosseiro que eu não tive coragem de
reproduzir aqui); a princesa, indignada com o escrito mandou dar uma
surra de chicote nas nádegas do padre, despi-lo em praça pública e
aplicar uma "seringada" de pimenta do reino no seu clérigo
traseiro e depois soltá-lo nu no Bairro das Marafonas. O Padre
José Agostinho foi socorrido por uma atriz cômica do Teatro da
Rua dos Condes, Maria da Luz que depois veio a ser amante do vigário
humilhado. O matrimônio, é claro, foi um fracasso. A vida sexual do casal só começou
realmente, cinco anos depois, quando Carlota menstruou pela
primeira vez.
Apesar dos desentendimentos permanentes do casal, não só
no campo pessoal, mas também no aspecto político, eles conseguiram passar
36 anos casados, embora durante os últimos anos da união não houvesse
mais convivência entre eles.
Seus
filhos.
Mãe de nove
filhos
(mas comentava-se que pelo
menos cinco deles não eram filhos de Dom João), um deles Pedro, que seria imperador do Brasil;
foram eles:
Dona Maria
Teresa Francisca de Assis Antonia Carlota Joana Josefa Xavier de Paula
Micaela Rafaela Isabel Gonzaga de Bragança. Nasceu a 29 abril 1793
em Queluz - Portugal, se casou com seu primo Pedro Carlos
Antonio de Bourbon e Bragança (que faleceu em 26 de Maio de 1812) a
13 Maio de 1810 no Rio de Janeiro. Em segundas núpcias
casou com com o seu cunhado e tio, o Infante Dom Carlos Maria
Isidro, Duque de Madrid e Conde de Montemolin e Molina,
que em 1834 enviuvara da Infanta Dona Maria Francisca de Assis. Dona
Maria Teresa morreu a 17 Janeiro de 1874 em Trieste.
Dom Antonio
de Bragança e Bourbon (Dom Antonio Pio). Foi Príncipe da
Beira. Nasceu a 21 Março de 1795 em Queluz -
Portugal e morreu a 11 Junho de 1801.
Dona Maria
Isabel Francisca de Bragança, nasceu no Palácio de Queluz a 19
maio de 1797 em Queluz
- Portugal, casou com o Rei Dom Fernando VII de Espanha seu
tio, que já enviuvara de Dona Maria Antonia de Bourbon y Lorena,
Princesa de Nápoles; a 29 Setembro
de 1816 e morreu a 29 dezembro de 1818 em Madrid - Espanha.
Dom Pedro
I de Bragança (Pedro IV de Portugal), nasceu a 12 Outubro de 1798 em Portugal,
casou em 1817 com Maria Leopoldina Von Habsburg-Lothringen e
morreu a 24 Outubro de 1834 em Portugal. Teve um segundo
casamento com Amélia de Beauharnais. Foi esse aí que proclamou
a independência do Brasil e foi o seu primeiro imperador.
Dona Maria
Francisca Assis de Bragança, nasceu no Palácio de Queluz em
22 de Abril de 1800, casou em 1816, com o seu tio, Dom Carlos Maria
Isidro, Infante de Espanha, falecido em 1815 e morreu em Gosport
- Inglaterra, a 4 de setembro de 1834, estando sepultada na
capela-mor da igreja católica da mesma cidade inglesa.
Dona
Isabel Maria de Bragança, nasceu no Palácio de Queluz -
Portugal, a 4 de julho de 1801; faleceu em Benfica - Portugal,
a 22 de abril de 1876, estando sepultada no Panteão de São Vicente
de Fora. Nunca casou, tendo sido regente do reino, de 6 de Março de
1826 a 26 de Fevereiro de 1828. Após a vitória da causa liberal
manteve-se afastada da vida política.
Dom Miguel
I de Bragança, nasceu a 26 outubro de 1802 em Queluz - Portugal;
foi batizado com o nome de: Dom Miguel Maria do Patrocinio
João Carlos Francisco de Assis Xavier Paula Pedro de Alcântara António
Rafael Gabriel Joaquim José Gonzaga Evaristo Infante de Portugal; depois
do golpe seu nome ficou sendo: Dom Miguel I Maria do
Patrocinio João Carlos Francisco de Assis Xavier Paula Pedro de Alcântara
António Rafael Gabriel Joaquim José Gonzaga Evaristo Rei de Portugal e
Algarves,
casou em 1851 com Adelheid zu Löwenstein-Wertheim Rosenberg
e morreu a 14 novembro de 1866 em Carlsruhe, junto a Bronnbach
- Viena.
Foi esse cara aí que tentou depor o próprio pai. Se
auto proclamou rei em 11 de Agosto de 1828; e foi deposto e enviado para
o exílio por Dom Pedro I (seu irmão ex-Imperador do Brasil)
em 1834.
Dona
Maria da Assunção. Nasceu no Palácio de Queluz, a 25 de
Junho de 1805; faleceu em Santarém - Portugal a 7 de janeiro de
1834; sepultada na Igreja do Milagre, de Santarém, e
depois transladada para o Panteão de São Vicente de Fora.
Dona Ana
de Jesus Maria Luíza Gonzaga Joaquina Micaela Rafaela Sérvula
Francisca Antônia Xavier de Paula Bragança e Bourbon, nasceu no
Palácio de Mafra a 23 outubro de 1806, casou em 5 dezembro de 1827 com Nuno José Severo de
Mendonça Rolim de Moura Barreto (2.º Marquês de Loulé) e morreu a 22
junho de 1857 em Roma
- Itália.
Em
1081 durante o episódio que entrou para e história como Guerra das
Laranjas, no qual a Espanha deu apoio a França para invadir Portugal,
Carlota Joaquina sai em defesa do marido e de Portugal,
alertando seu pai por carta do perigo que todos corriam ao se envolverem com
Napoleão; não deu outra, 7 anos depois toda a família real
espanhola estava presa por ordem de Napoleão Bonaparte, menos é
claro, ela que era casada com o Dom João VI e fugiu para o Brasil.
Sua
Aparência e sua Personalidade.
Infante
da Espanha, Rainha de Portugal e Imperatriz Honorária do
Brasil, Carlota
Joaquina de Bourbon só tinha um aspecto em comum com seu marido; a feiúra
aterradora; conta um artigo da época que:
"...A
mulher era quase horrenda, ossuda, com uma espádua acentuadamente mais
alta do que a outra, uns olhos miúdos, a pele grossa que as marcas da
bexiga (bexiga: o mesmo que varíola. Nota do autor), ainda fazia mais áspera, o nariz avermelhado.
E pequena, quase
anã... Uma alma ardente, ambiciosa, inquieta, sulcada de paixões, sem
escrúpulos, com os impulsos do sexo alvoroçados...".
Dona
Leopoldina, uma de suas noras, que casou com Dom Pedro I,
Imperador do Brasil, quando a viu pela primeira vez, achou-a tão
feia que "baixou os olhos como não querendo voltar a vê-la; as
marcas da varíola, o corte de cabelo, cordões e mais cordões de
pérolas e pedras preciosas enroladas em seus cabelos, pendendo de seus
cachos gordurosos como cobras". (trecho entre
aspas extraído do diário de Dona Leopoldina).
Uma
de suas filhas, Dona Maria Tereza, em conversa com Dona
Leopoldina, revela na lata a personalidade de sua mãe:
"Nossa
Mãe Dona Carlota Joaquina, temos de respeitá-la, mas é
preferível sair do seu caminho. Você vai ouvir seus gritos até nas
ruas mais distantes, quando ela tem um ataque de raiva, porque não lhe
trazem jovens fortes... Ela é uma Bourbon e teve de casar com um
Bragança, que não é uma estirpe boa. Com os portugueses tudo
é indefinido... Pouca ambição, pouco espírito de luta. Os nossos
pais não nos amam, eles nos separaram; Pedro (Dom
Pedro I. Nota do autor) teve sorte de poder
viver com o pai. Nós, as moças, as minhas duas irmãs e meu irmão Miguel
tivemos de viver com ela... Meu pai mandou prendê-la num convento (o Convento
da Ajuda no Rio de Janeiro, Nota do Autor), porque não podia mais confiar nela. Ela se oferece aos criados... No Convento
da Ajuda tentaram conter o seu desejo com uma alimentação
especialmente leve, mas voltou ainda mais briguenta, mais desajustada. Montevidéu
ela quer só para si, ela a espanhola... Queria vender suas jóias para
poder pagar uma conspiração que derrubasse nosso pai. Isso ela já
havia feito em Lisboa, queria conseguir afastar o marido do
trono, declarando-o incapaz... Os comerciantes na praça fofocam sobre a
ninfomaníaca; ela encomenda manteiga irlandesa e trigo alemão, o
veludo e as cortinas de tule da Itália, e manda o porteiro ir até
a agência, para que lhe mandassem garotos. Ela mesma desce até o porto
quando chegam navios da Europa; tem um interesse especial por
aqueles que se declaram médicos, querendo que lhe expliquem e desenhem
as partes do corpo humano... A maioria tem medo de tal mulher; e eu também".
Dizia a infeliz filha.
Convento
da Ajuda
Próximo
de onde hoje é o final da Avenida Rio Branco.
(Rio
de Janeiro)
Convento
da Ajuda
Foto
tirada de outro ângulo. No centro aproximado desta foto, fica hoje a
Cinelândia (no Centro da Cidade). A rua enviesada, é a Rua da Ajuda propriamente
dita, ainda existe um pequenino pedaço dela atrás do prédio da sede do
BANERJ (Banco do Estado do Rio de Janeiro, recentemente privatizado pelo
Banco Itaú).
Mesmo
antes de a família real vir para o Brasil, Carlota
insultava o rei insinuando que nenhum de seus filhos seriam dele; Pedro
seria filho de um certo fidalgo chamado Marialva e Miguel
filho de um jardineiro do Palácio
de Ramalhão que supostamente Carlota teria mandado matar
após ter engravidado dele. Em conseqüência desses desentendimentos
formou-se uma verdadeira rede de intrigas na corte, e esta circuito atuava
entre as duas partes e tornava este assunto, o predileto das fofocas do Rio
de Janeiro. Se estava mau humorada, mandava chicotear transeuntes
que não se ajoelhavam quando ela passava com seu cortejo.
A
Chácara de Botafogo.
Não
era sem razão, portanto, que o real casal habitasse casas
diferentes, ela na Chácara de Botafogo (esquina da antiga Estrada
do Catete, atual Rua Marques de Abrantes com a Praia de
Botafogo), ele em São Cristovão (na atual Quinta
da Boa Vista/Museu Imperial).
A
Chácara de Botafogo (também conhecida como Palácio de
Botafogo) pertencia ao Sr. José Fernandes,
filho do famoso contratador de diamantes Dr. Fernandes e da mais
famosa ainda, a ex-escrava Chica da Silva.
Quando
da chegada da família real no Rio de Janeiro vindo da Bahia,
as melhores casa, mansões chácaras e palacetes foram desapropriados
para hospedar os fidalgos da corte portuguesa; não a família real na
pessoa de seus membros mais diretos, a esses, a própria elite da
sociedade carioca havia oferecido imóveis como "presentes"
aos reis e sua família, assim foi com a Quinta da Boa Vista em São
Cristovão (presente de um riquíssimo negociante português
chamado Elias Silva), uma casa na Ilha de Paquetá, a bela
chácara de São Domingos na Praia Grande (presente de uma certa
mulata, herdeira de muitos bens de seu falecido esposo o Sr. José
Nunes), e outra na Ilha do Governador (presente de outro
negociante rico). Quanto aos outros membros da parasita corte
portuguesa, fidalgos ou não, esses foram viver em casas, chácaras e
mansões desapropriadas pelo Príncipe Regente para esses fim.
O
membro da corte andava pelas ruas acompanhado de um funcionário da
coroa portuguesa, olhava para uma casa que lhe conviesse e dizia ao
meirinho:
-
Quero Esta!
O Oficial de Justiça que o acompanhava comunicava
ao infeliz proprietário do imóvel que tinha a partir daquele momento
24 horas para deixar o imóvel e todos os móveis; a casa era marcada
com um giz ou tinta azul com a sigla PR, que queria dizer Príncipe
Regente, mas que os cariocas transformavam como sendo Ponha-se
na Rua.
No
caso da Chácara de Botafogo, aconteceu o seguinte:
O
Diretor da Balança Real, um cargo sem nenhuma significância,
foi procurar uma casa para ele e sua família; meteu-se pela Estrada
do Catete indo dar na Praia de Botafogo; olhando para a
belíssima chácara no centro de um lindo jardim estilo inglês, avisou
ao "meirinho do rei" que queria essa chácara; o funcionário entrou e informou ao Sr. José Fernandes:
-
Em nome do Regente, eu intimo o Sr. José Fernandes a
ceder este imóvel ao Sr. Trancoso diretor do erário público!
-
Certo senhor meirinho eu já esperava, aceitou o Sr. José Fernandes
e continuou:
-
O Sr. Trancoso vai querer os móveis também?
O
funcionário do tesouro do rei olhando os móveis de jacarandá e
pau-santo respondeu:
-
Certamente Sr. Fernandes...
-
Tudo bem, é seu. E os meus quadros? E meus vasos de Sèrves?
(região onde se produzia os melhores cristais da Europa).
-
Isto está incluído na mobília...
-
E os meus livros?
-
Também...
-
E meu oratório com as imagens dos santos de minha devoção?
-
Também, afinal eu sou cristão...
-
Então fique com tudo...
-
E minha escrava, arrumadeira, a cozinheira e o meu pajem?
-
Também fico com eles Sr. Fernandes...
Então
o Sr. José Fernandes foi até o quarto e buscou a sua esposa,
uma mulata mineira de Diamantina, gorducha, e perguntou:
-
Sr. Trancoso, essa é a minha esposa, o senhor também vai querer
requisita-la em nome do Príncipe Regente?
O
Diretor da Balança Real olhou, olhou e disse:
-
Infelizmente a autorização do rei não permite isso. Se fosse
permitido eu...
-
Eu te enfiava uma faca na cara! Gritou a mineira gorducha...
interrompendo a fala do Sr.Trancoso.
A
tarde, neste mesmo dia, o Sr. José Fernandes, tendo perdido sua
mansão, foi até ao Convento do
Carmo (na atual Rua do Carmo), onde Dona Carlota Joaquina
estava instalada provisoriamente
e disse a ela:
-
Senhora, a residência mais bonita de Botafogo está a sua
disposição, com mobília, escravos e serviçais, permita que a ofereça
a vossa majestade!
-
Aceito! Respondeu Carlota.
No
dia seguinte pela manhã, Trancoso e toda a sua família saíram
de carruagem pela Estrada do Boqueirão da Glória (aproximadamente
o que é hoje a Rua da Glória), entraram pela Estrada do
Catete; Trancoso, todo satisfeito e orgulhoso chegou na
chácara e deu de cara com a Princesa já instalada em sua nova residência.
-
O que fazem aqui? Perguntou Dona Carlota a Trancoso.
-
Beijar a mão de vossa majestade gaguejou o funcionário do erário da
coroa.
-
Ora, vá pentear macacos! Esbravejou a princesa. Estou cheia de rapapés
e "beija-mãos"; ponha-se daqui pra fora com sua tropa e não
me apareça mais aqui.
O
Chalaça.
Era
sabido por todos das aventuras amorosas de Carlota Joaquina,
amorosa, é uma maneira de dizer, pois ao que se saiba era só sexo,
nada mais. Além do mais ela representava constante perigo a autoridade
do príncipe. O regente conseguia espiões para vigia-la e a princesa
subornava outros tantos para estar sempre abastecida de informações
do que ocorria no Palácio Real e na Quinta da Boa Vista.
É
aí que entra o Sr. Francisco Gomes da Silva que tinha o apelido de Chalaça (chalaça=Dito de zombaria. 2. Dito picante. 3. Frase graciosa e satírica.
Fonte: Dicionário Michaelis), sua alcunha seria o
equivalente hoje em dia apelidar alguém de Palhaço. Ele, a princípio trabalhava para Carlota,
mas depois foi pressionado pelo regente e passou a espionar sua mulher
para ele; depois de vários relatórios feitos por Chalaça sobre
as atividades sexuais da esposa, o príncipe regente teria em certa ocasião
dito em público:
"...Na vida de Carlota,
a moralidade morreu...".
Francisco
Gomes que era filho do ourives da casa real, espionava Carlota a partir
de suas idas e vindas a Chácara de Botafogo (também conhecida
como Palácio de Botafogo), que era a
residência da princesa. Ele era reposteiro do paço,
cargo que cuidava do equipamento decorativo das residências oficiais do
rei. Tendo
o espião Chalaça descoberto muitas das peripécias sexuais de Carlota,
relatou tudo ao marido Dom João; Carlota então foi
tomada de um ódio figadal pelo puxa-saco do rei e seu traidor.
Certa
vez Dona
Carlota Joaquina subornou uma criada de sua filha, a princesa Maria
Teresa para espionar o Chalaça; eis que essa criada,
descobriu que de 13:00 ás 14:00h da tarde, horário da sesta do rei e
dos príncipes; Francisco Gomes o Chalaça se
encontrava com a dama de honra da casa real Eugênia Costa (que
era casada com Antonio Costa fornecedor comercial do Palácio
Real) para
seções de sexo na salinha de costura da princesa Maria Teresa.
Foi
numa quarta-feira a tarde que Dona Carlota Joaquina montou em um
de seus cavalos e, saindo pela Estrada do Catete (atual Rua do
Catete), cruzou o Largo do Machado, entrou pela Estrada do
Boqueirão da Glória (atual proximidades da Rua da Glória);
a direita ela tinha um caminho mais longo, porém mais saudável,
beirando a Praia do Russel (atual Avenida Beira Mar e
Aterro do Flamengo), a Praia Areia de Espanha (atual Avenida
Augusto Severo e Monumento aos Pracinhas), e logo chegaria ao Paço
(na atual Praça XV),
mas, ela preferiu encurtar caminho, passando pelo fétido brejo próximo
ao aqueduto dos Arcos da Lapa e tomando a Rua da Ajuda, e assim, num
átimo como se dizia na época ela saiu da Chácara de Botafogo e
apareceu nos aposentos do rei seu marido.
-
João, disse Carlota, você mandou Francisco Gomes
seu criado de confiança para me espionar e, confiando nele,
disse que a moralidade em mim, havia morrido, agora vou lhe mostrar que
essa tal moralidade que você tanto preza também é moribunda aqui no
palácio. Quer Ver? Vamos até ali, na sala de costura de nossa filha.
-
Você perdeu o juízo Carlota?
-
Vamos ver, vamos ver... Respondeu Carlota.
O
rei, vestindo roupão e chinelos, dirigiu-se a sala de costura. Lá
estavam os dois amantes, Chalaça e Eugênia num canapé
de jacarandá (pequeno e estreito sofá, em geral estofado com
palhinha), no exato momento em que Francisco apertava contra o seu
peito os gordos seios da dama de honra da casa real.
-
Que canalhice é essa? Gritou o rei indignado com a cena.
-
Perdão senhor, perdão! Disseram os dois ao mesmo tempo, de joelhos e
tentando beijar as mãos de Dom João.
-
Retirem-se para os seus aposentos! Isso é uma vergonha! Querem
transformar o palácio num bordel? Gritou o rei enquanto os
amantes se recompunham.
-
João, disse Carlota Joaquina ao esposo, fico satisfeita do seu
empregado de confiança ter dado uma grande demonstração de comportamento
moral, te deixo aqui neste suave recanto de moralidade e volto para a
minha casa, paraíso de devassidão segundo seus espiões. E sorrindo cinicamente
saiu, voltando a Chácara de Botafogo.
O
rei ficou muito contrariado com o episódio, não que ele não soubesse
que coisas semelhantes ocorriam por todo o palácio, mas sim por ter presenciado
e de Carlota ter sabido antes dele dos amantes na saleta de costura.
Ele
não gostava dessa devassidão, mas tolerava, por não ter muito o que
fazer.
No dia seguinte ao ocorrido,
João soube que Chalaça e Eugênia
haviam fugido do palácio para uma chácara no Cosme Velho (hoje
um bairro próximo ao Bairro do Catete de onde sai o bondinho para o Corcovado
e o Cristo Redentor;
na verdade, bem próximo de onde ficava a chácara de Dona Carlota).
Ele mandou chamar o Ministro Thomaz Antonio.
-
Thomaz, disse o rei, deu-se ontem aqui, um fato vergonhoso e impróprio
desta casa. Surpreendi o reposteiro Francisco Gomes da Silva abraçado
e aos beijos com a dama Eugênia, e acabo de saber agora que
ambos fugiram deste Paço. Eles não podiam continuar no serviço e eu
pretendia despedi-los simplesmente, sem escândalo. Mas diante do que
aconteceu eu punirei o sedutor. Fiz esta minuta. Leve-a ao corregedor do
crime e que o castigo se torne público como público já é o
escândalo que esse malandro provocou.
Dois
dias depois Carlota Joaquina, na sua residência de Botafogo,
recebia a visita da filha Maria Teresa que lhe levava um exemplar
da Gazeta do Rio de Janeiro.
-
Então, filha, que novidades há no Paço?
- A maior de todas é o rapto
da Eugênia Costa. Ela foi seduzida pelo reposteiro Francisco
Gomes, e, tiveram a petulância de erigir minha saleta de costura,
enquanto dormíamos a sesta, em templo de amor.
- E o
que aconteceu ao Gomes?
- Ah! O Gomes foi bem castigado. Leia
isto na “Gazeta do Rio”. Trouxe-lhe o jornal, porque sei que
há de agradar-lhe uma notícia.
Pegando
o jornalzinho oficial, Carlota Joaquina, gozando um de seu prazeres, que
era a vingança, leu pausadamente, em voz alta:
“Sr.
Corregedor do crime.
- Não devendo ficar impune o desatino em que caiu
o reposteiro da Câmara Real Francisco Gomes da Silva, de
aleivosamente aliciar e raptar uma dama de honor, é el-rei nosso senhor
servido que vossa mercê faça intimar o sobredito reposteiro que não
entre mais no Paço e que deve sair para fora da Corte, numa distância
de dez léguas (seriam cerca de 60 Km hoje em dia. Nota
do autor), até segunda ordem. O que participo a vossa mercê
para que assim o execute. Deus guarde a vossa mercê. Thomaz Antonio.”
(mais tarde Chalaça se "exilou" em Itaboraí,
hoje, uma cidade a cerca de 40 km do centro do Rio de Janeiro, mas
que na época ficava muito distante, pois não havia a Ponte
Rio-Niterói, que hoje atravessa a Baía de Guanabara fazendo com
que o percurso entre o Rio e Itaboraí tenha se encurtado muito).
- Aí
está, minha filha, como o rei, seu pai e meu marido, sem o querer,
reconhece nos seus protegidos e meus inimigos, a devassidão e
imoralidade que eles me atribuem. Eu, uma devassa, eles uns santos...
Olha, minha filha, cá e lá más favas há. Ainda tenho esperanças de
ver o favorito Lobato desmascarado. E há de ser, se Deus
quiser... (Lobato foi eleito inimigo mortal de Carlota
desde 1805 quando ele através de uma denúncia do Frei Franciscano Antonio
de Andrade anunciou ao príncipe regente a tentativa de golpe de Carlota)
Era
assim que a princesa cuidava de seus inimigos.
 
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