Pequena História do Catete - Biografias

Carlota Joaquina

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Dona Carlota Joaquina

Dona Carlota Joaquina

 

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Família de Carlos IV

Carlos IV e Família

Dona Maria Luísa de Parma

Dona Maria Luísa de Parma, sua mãe pintura de 1800

Autor: Francisco José de Goya y Lucientes

Óleo sobre tela 210 x 130 cm.

Exposto no Museu do Palácio Real de Madrid

Conde de Sant Germant

Conde de Sant Germant

Pintura de J. Augustus Knapp extraída do livro "Filosofia Simbólica Maçônica, Hermética, Cabalística e Rosa-cruz" de Manly P. Hall.

O Conde de San German também conhecido como Príncipe Ragoczy da Transilvânia (além de muitos outros nomes e grafias), é um personagem ligado a metafísica, ciências ocultas, ocultismo, esoterismo e exoterismo; é referenciado pela Maçonaria, pelos Rosacruzes e pela Sociedade Teosófica.

Existem muitas histórias, lendas e mitos a seu respeito, havendo inclusive quem diga que ele nunca existiu.

Em 1972 um bonito homem francês se dizendo o próprio Conde de San Germant vestindo roupas comuns para a década de 1970 foi até o canal estatal da TV francesa e "transformou" chumbo em ouro com o auxílio de um fogareiro usado em acampamentos, desapareceu ao final do programa e nunca mais foi visto.

Dom João VI

Dom João VI, seu  Marido.

Carlos III

Carlos III

Padre José Agostinho de Macedo

Padre José Agostinho de Macedo

Litografia de J. P. de Lima

Dona Maria Isabel Francisca de Bragança

Dona Maria Isabel Francisca de Bragança

Rei Fernando VII

Rei Fernando VII

Dona Maria Teresa

Dona Maria Teresa

 

Dom Pedro I

Dom Pedro I

Dona Leopoldina 1ª esposa de Dom Pedro I

Dona Leopoldina 1ª esposa de Dom Pedro I

Dona Amélia 2ª esposa de Dom Pedro I

Dona Amélia 2ª esposa de D. Pedro I

Este quadro foi pintado por Arnaud Julien Pallière (ou Palliard) o pintor oficial da corte na época, em outubro de 1829 uma semana após a chegada da imperatriz vinda da Baviera. Provavelmente ela foi retratada de costas devido a urgência com a qual o quadro foi feito - pintura óleo sobre tela com cerca de 70 cm de altura.

Dona Amélia contava com apenas 17 anos quando se casou por procuração com Dom Pedro I, após o casamento ele teria deixado suas amantes, inclusive seu famoso romance com a Marquesa de Santos (Dona Domitila de Castro).

Este quadro estava desaparecido e foi leiloado pela casa Christie's de Nova York, foi oferecido ao Museu Imperial de Petrópolis por esta casa que o comprou por US$ 30.000 (trinta mil dólares) em dezembro de 2001.

A Casa Christie's de Nova York se recusou a informar onde conseguiu a obra.

Dom Miguel I de Bragança

Dom Miguel I de Bragança

José Severo de Mendonça Rolim de Moura Barreto, 9.º Conde de Vale de Reis, 2.º Marquês de Loulé e 1.º Duque de Loulé.

José Severo de Mendonça Rolim de Moura Barreto, 9.º Conde de Vale de Reis, 2.º Marquês de Loulé e 1.º Duque de Loulé.

Carlota Joaquina a cavalo

Carlota adorava ter cavalos de raça

 

Carlota Joaquina Pintada por Debret

Carlota Joaquina ainda jovem, pintura de Debret.

 

Dona Carlota Joaquina

Dona Carlota

Francisco Gomes da Silva, o Chalaça

Francisco Gomes da Silva, o Chalaça

Chalaça veio para o Brasil com a família real portuguesa e acabou ficando por aqui quando do retorno de Dom João VI a Europa, mais tarde ele se tornou amigo íntimo, confidente e auxiliar de Dom Pedro I.



Dom Pedro II

Dom Pedro II.

Neto de Dona Carlota.

 

Dona Carlota Joaquina Autor Desconhecido

Dona Carlota Joaquina, pintura de autor desconhecido

Dona maria I (A Louca)

Dona Maria I (A Louca).

Sua Sogra.

Dona Carlota Joaquina e Dom João VI

João e Joaquina

 

 

 

 

 

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Nome: Carlota Joaquina de Bourbon e Bragança.

Local e data de nascimento: Palácio de Aranjuez - Madrid a 25 Abril de 1775.

Local e data da Morte: Queluz - Lisboa a 7 Janeiro 1830.

Dona Carlota Joaquina era filha primogênita (primogênita sim, porém sua mãe sofreu vários abortos) do reiDona Carlota Joaquina Carlos IV de Espanha e da rainha Dona Maria Luísa Teresa de Parma e Bourbon. Dizem, que logo após o seu nascimento, Dona Luiza de Parma sua mãe, a levou na presença do famoso místico Conde de Sant Germant para que ele lesse na mão da pequenina Carlota o seu futuro, o seu destino, teria dito Sant Germant: "...Senhora, vossa filha será rainha sem coroa, será mulher sem amor e será mártir, martirizando os outros...". Se é verdade que isso aconteceu, foi um resumo fantástico do que seria a vida de Dona Carlota Joaquina. Se casou em 8 de Maio, tendo 10 anos de idade; casou por procuração, com Dom João VI; uma união simplesmente por interesse de negócios entre os dois países; ele, contava com  18 anos.

O Casamento.

Para realizar o projeto chamado de Floridablanca pelo qual se conseguiria uma aliança duradoura entre Espanha e Portugal foi assinado um tratado no qual estabelecia dois casamentos entre infantes espanhóis e portugueses; a Espanha daria ao príncipe Dom João a princesinha Carlota; e Portugal daria ao Príncipe Dom Gabriel, filho do Rei Carlos III, Dona Mariana Vitória irmã de Dom João; na época destes acordos Dona Carlota tinha 8 anos de idade e Dona Mariana tinha 15; esses casamentos levaram dois anos para se consumarem; só ocorreram após a assinatura do "tratado" entre a Rainha Maria Vitória de Portugal e o Rei Carlos III de Espanha. Em 17 de março de 1785 o Conde de Louriçal que era ministro português na corte de Madrid pediu a mão de Dona Carlota para casamento em nome de Dom João; e o Conde Fernan Nunes embaixador espanhol em Lisboa pediu a mão da infanta portuguesa Dona Mariana Vitória em nome do príncipe Dom Gabriel. Carlota teve que submeter-se aos chamados "exames públicos" para o acordo matrimonial, quando respondeu durante 4 dias, cerca de uma hora por dia a perguntas sobre religião, geografia, história, gramática, língua portuguesa, (não se esqueça que ela era espanhola) espanhol e francês; as apresentações dos dois casais aconteceram no dia  8 de maio de 1775 na cidade portuguesa de Vila Viçosa na fronteira com a Espanha. No dia seguinte, o casamento foi aceito pela Igreja através da benção dada por um cardeal. Os festejos duraram quatro dias, durante o dia se realizavam torneios  e touradas, e a noite haviam reuniões musicais que na época se chamavam "serenins", bailes e representações líricas. Dentro desses festejos, durante uma das noites de núpcias, a princesa Carlota agrediu o esposo, mordeu-lhe fortemente a orelha e atirou um castiçal no rosto do marido. Depois desse episódio, foi feito um ato adicional ao contrato de casamento, permitindo que Dona Carlota pudesse ter sua primeira relação sexual com o marido aos 14 anos podendo voltar atrás caso assim ela quisesse ou seja: se ela quisesse fazer sexo antes dos 14 anos, poderia. Um certo Padre José Agostinho de Macedo, imprimiu uns folhetos contando esse caso da noite de núpcias de forma brincalhona e sarcástica com o titulo "O gato que cheirou e não comeu" (o texto é de um mau gosto terrível é tão grosseiro que eu não tive coragem de reproduzir aqui); a princesa, indignada com o escrito mandou dar uma surra de chicote nas nádegas do padre, despi-lo em praça pública e aplicar uma "seringada" de pimenta do reino no seu clérigo traseiro e depois soltá-lo nu no Bairro das Marafonas. O Padre José Agostinho foi socorrido por uma atriz cômica do Teatro da Rua dos Condes, Maria da Luz que depois veio a ser amante do vigário humilhado. O matrimônio, é claro, foi um fracasso.  A vida sexual do casal só começou realmente, cinco anos depois, quando Carlota menstruou pela primeira vez.

Apesar dos desentendimentos permanentes do casal, não só no campo pessoal, mas também no aspecto político, eles conseguiram passar 36 anos casados, embora durante os últimos anos da união não houvesse mais convivência entre eles.

Seus filhos.

Mãe de nove filhos (mas comentava-se que pelo menos cinco deles não eram filhos de Dom João), um deles Pedro, que seria imperador do Brasil; foram eles:

Dona Maria Teresa Francisca de Assis Antonia Carlota Joana Josefa Xavier de Paula Micaela Rafaela Isabel Gonzaga de Bragança. Nasceu a 29 abril 1793 em Queluz - Portugal, se casou com  seu primo Pedro Carlos Antonio de Bourbon e Bragança (que faleceu em 26 de Maio de 1812) a 13 Maio de 1810 no Rio de Janeiro. Em segundas núpcias casou com com o seu cunhado e tio, o Infante Dom Carlos Maria Isidro, Duque de Madrid e Conde de Montemolin e Molina, que em 1834 enviuvara da Infanta Dona Maria Francisca de Assis. Dona Maria Teresa morreu a 17 Janeiro de 1874 em Trieste.

Dom Antonio de Bragança e Bourbon (Dom Antonio Pio). Foi Príncipe da Beira. Nasceu a 21 Março de 1795 em Queluz - Portugal e morreu a 11 Junho de 1801.

Dona Maria Isabel Francisca de Bragança, nasceu no Palácio de Queluz a 19 maio de  1797 em Queluz - Portugal, casou com o Rei Dom Fernando VII de Espanha seu tio, que já enviuvara de Dona Maria Antonia de Bourbon y Lorena, Princesa de Nápoles; a 29 Setembro de 1816 e morreu a 29 dezembro de 1818 em Madrid - Espanha.

Dom Pedro I de Bragança (Pedro IV de Portugal), nasceu a 12 Outubro de 1798 em Portugal, casou em 1817 com Maria Leopoldina Von Habsburg-Lothringen e morreu a 24 Outubro de 1834 em Portugal. Teve um segundo casamento com Amélia de Beauharnais. Foi esse aí que proclamou a independência do Brasil e foi o seu primeiro imperador.

Dona Maria  Francisca Assis de Bragança, nasceu no Palácio de Queluz em 22 de Abril de 1800, casou em 1816, com o seu tio, Dom Carlos Maria Isidro, Infante de Espanha, falecido em 1815 e morreu em Gosport - Inglaterra, a 4 de setembro de 1834, estando sepultada na capela-mor da igreja católica da mesma cidade inglesa.

Dona Isabel Maria de Bragança, nasceu no Palácio de Queluz - Portugal, a 4 de julho de 1801; faleceu em Benfica - Portugal, a 22 de abril de 1876, estando sepultada no Panteão de São Vicente de Fora. Nunca casou, tendo sido regente do reino, de 6 de Março de 1826 a 26 de Fevereiro de 1828. Após a vitória da causa liberal manteve-se afastada da vida política.

Dom Miguel I de Bragança, nasceu a 26 outubro de 1802 em Queluz - Portugal; foi batizado com o nome de: Dom Miguel Maria do Patrocinio João Carlos Francisco de Assis Xavier Paula Pedro de Alcântara António Rafael Gabriel Joaquim José Gonzaga Evaristo Infante de Portugal; depois do golpe seu nome ficou sendo: Dom Miguel I Maria do Patrocinio João Carlos Francisco de Assis Xavier Paula Pedro de Alcântara António Rafael Gabriel Joaquim José Gonzaga Evaristo Rei de Portugal e Algarves, casou em 1851 com Adelheid zu Löwenstein-Wertheim Rosenberg e morreu a 14 novembro de 1866 em Carlsruhe, junto a Bronnbach - Viena. Foi esse cara aí que tentou depor o próprio pai. Se auto proclamou rei em 11 de Agosto de 1828; e foi deposto e enviado para o exílio por Dom Pedro I (seu irmão ex-Imperador do Brasil) em 1834.

Dona Maria da Assunção. Nasceu no Palácio de Queluz, a 25 de Junho de 1805; faleceu em Santarém - Portugal a 7 de janeiro de 1834; sepultada na Igreja do Milagre, de Santarém, e depois transladada para o Panteão de São Vicente de Fora.

Dona Ana de Jesus Maria Luíza Gonzaga Joaquina Micaela Rafaela Sérvula Francisca Antônia Xavier de Paula Bragança e Bourbon, nasceu no Palácio de Mafra a 23 outubro de 1806, casou em 5 dezembro de 1827 com Nuno José Severo de Mendonça Rolim de Moura Barreto (2.º Marquês de Loulé) e morreu a 22 junho de 1857 em Roma - Itália.

Em 1081 durante o episódio que entrou para e história como Guerra das Laranjas, no qual a Espanha deu apoio a França para invadir Portugal, Carlota Joaquina sai em defesa do marido e de Portugal, alertando seu pai por carta do perigo que todos corriam ao se envolverem com Napoleão; não deu outra, 7 anos depois toda a família real espanhola estava presa por ordem de Napoleão Bonaparte, menos é claro, ela que era casada com o Dom João VI e fugiu para o Brasil.

Sua Aparência e sua Personalidade.

Infante da Espanha, Rainha de Portugal e Imperatriz Honorária do Brasil, Carlota Joaquina de Bourbon só tinha um aspecto em comum com seu marido; a feiúra aterradora; conta um artigo da época que:

"...A mulher era quase horrenda, ossuda, com uma espádua acentuadamente mais alta do que a outra, uns olhos miúdos, a pele grossa que as marcas da bexiga (bexiga: o mesmo que varíola. Nota do autor), ainda fazia mais áspera, o nariz avermelhado. E pequena, quase anã... Uma alma ardente, ambiciosa, inquieta, sulcada de paixões, sem escrúpulos, com os impulsos do sexo alvoroçados...".

Dona Leopoldina, uma de suas noras, que casou com Dom Pedro I, Imperador do Brasil, quando a viu pela primeira vez, achou-a tão feia que "baixou os olhos como não querendo voltar a vê-la; as marcas da varíola, o corte de cabelo, cordões e mais cordões de pérolas e pedras preciosas enroladas em seus cabelos, pendendo de seus cachos gordurosos como cobras". (trecho entre aspas extraído do diário de Dona Leopoldina).

Uma de suas filhas, Dona Maria Tereza, em conversa com Dona Leopoldina, revela na lata a personalidade de sua mãe:

"Nossa Mãe Dona Carlota Joaquina, temos de respeitá-la, mas é preferível sair do seu caminho. Você vai ouvir seus gritos até nas ruas mais distantes, quando ela tem um ataque de raiva, porque não lhe trazem jovens fortes... Ela é uma Bourbon e teve de casar com um Bragança, que não é uma estirpe boa. Com os portugueses tudo é indefinido... Pouca ambição, pouco espírito de luta. Os nossos pais não nos amam, eles nos separaram; Pedro (Dom Pedro I. Nota do autor) teve sorte de poder viver com o pai. Nós, as moças, as minhas duas irmãs e meu irmão Miguel tivemos de viver com ela... Meu pai mandou prendê-la num convento (o Convento da Ajuda no Rio de Janeiro, Nota do Autor), porque não podia mais confiar nela. Ela se oferece aos criados... No Convento da Ajuda tentaram conter o seu desejo com uma alimentação especialmente leve, mas voltou ainda mais briguenta, mais desajustada. Montevidéu ela quer só para si, ela a espanhola... Queria vender suas jóias para poder pagar uma conspiração que derrubasse nosso pai. Isso ela já havia feito em Lisboa, queria conseguir afastar o marido do trono, declarando-o incapaz... Os comerciantes na praça fofocam sobre a ninfomaníaca; ela encomenda manteiga irlandesa e trigo alemão, o veludo e as cortinas de tule da Itália, e manda o porteiro ir até a agência, para que lhe mandassem garotos. Ela mesma desce até o porto quando chegam navios da Europa; tem um interesse especial por aqueles que se declaram médicos, querendo que lhe expliquem e desenhem as partes do corpo humano... A maioria tem medo de tal mulher; e eu também". Dizia a infeliz filha.

Convento da Ajuda

Convento da Ajuda

Próximo de onde hoje é o final da Avenida Rio Branco.

(Rio de Janeiro)

Convento da Ajuda

Convento da Ajuda

Foto tirada de outro ângulo. No centro aproximado desta foto, fica hoje a Cinelândia (no Centro da Cidade). A rua enviesada, é a Rua da Ajuda propriamente dita, ainda existe um pequenino pedaço dela atrás do prédio da sede do BANERJ (Banco do Estado do Rio de Janeiro, recentemente privatizado pelo Banco Itaú).

Mesmo antes de a família real vir para o Brasil, Carlota insultava o rei insinuando que nenhum de seus filhos seriam dele; Pedro seria filho de um certo fidalgo chamado Marialva e Miguel filho de um jardineiro do Palácio de Ramalhão que supostamente Carlota teria mandado matar após ter engravidado dele. Em conseqüência desses desentendimentos formou-se uma verdadeira rede de intrigas na corte, e esta circuito atuava entre as duas partes e tornava este assunto, o predileto das fofocas do Rio de Janeiro. Se estava mau humorada, mandava chicotear transeuntes que não se ajoelhavam quando ela passava com seu cortejo.

A Chácara de Botafogo.

Não era sem razão, portanto, que o real casal habitasse casas diferentes, ela na Chácara de Botafogo (esquina da antiga Estrada do Catete, atual Rua Marques de Abrantes com a Praia de Botafogo), ele em São Cristovão (na atual Quinta da Boa Vista/Museu Imperial).

A Chácara de Botafogo (também conhecida como Palácio de Botafogo) pertencia ao Sr. José Fernandes, filho do famoso contratador de diamantes Dr. Fernandes e da mais famosa ainda, a ex-escrava Chica da Silva.

Quando da chegada da família real no Rio de Janeiro vindo da Bahia, as melhores casa, mansões chácaras e palacetes foram desapropriados para hospedar os fidalgos da corte portuguesa; não a família real na pessoa de seus membros mais diretos, a esses, a própria elite da sociedade carioca havia oferecido imóveis como "presentes" aos reis e sua família, assim foi com a Quinta da Boa Vista em São Cristovão (presente de um riquíssimo negociante português chamado Elias Silva), uma casa na Ilha de Paquetá, a bela chácara de São Domingos na Praia Grande (presente de uma certa mulata, herdeira de muitos bens de seu falecido esposo o Sr. José Nunes), e outra na Ilha do Governador (presente de outro negociante rico). Quanto aos outros membros da parasita corte portuguesa, fidalgos ou não, esses foram viver em casas, chácaras e mansões desapropriadas pelo Príncipe Regente para esses fim.

O membro da corte andava pelas ruas acompanhado de um funcionário da coroa portuguesa, olhava para uma casa que lhe conviesse e dizia ao meirinho: 

- Quero Esta! 

O Oficial de Justiça que o acompanhava comunicava ao infeliz proprietário do imóvel que tinha a partir daquele momento 24 horas para deixar o imóvel e todos os móveis; a casa era marcada com um giz ou tinta azul com a sigla PR, que queria dizer Príncipe Regente, mas que os cariocas transformavam como sendo Ponha-se na Rua.

No caso da Chácara de Botafogo, aconteceu o seguinte:

O Diretor da Balança Real, um cargo sem nenhuma significância, foi procurar uma casa para ele e sua família; meteu-se pela Estrada do Catete indo dar na Praia de Botafogo; olhando para a belíssima chácara no centro de um lindo jardim estilo inglês, avisou ao "meirinho do rei" que queria essa chácara; o funcionário entrou e informou ao Sr. José Fernandes:

- Em nome do Regente, eu intimo o Sr. José Fernandes a ceder este imóvel ao Sr. Trancoso diretor do erário público!

- Certo senhor meirinho eu já esperava, aceitou o Sr. José Fernandes e continuou:

- O Sr. Trancoso vai querer os móveis também?

O funcionário do tesouro do rei olhando os móveis de jacarandá e pau-santo respondeu:

- Certamente Sr. Fernandes...

- Tudo bem, é seu. E os meus quadros? E meus vasos de Sèrves? (região onde se produzia os melhores cristais da Europa).

- Isto está incluído na mobília...

- E os meus livros?

- Também...

- E meu oratório com as imagens dos santos de minha devoção?

- Também, afinal eu sou cristão...

-  Então fique com tudo...

- E minha escrava, arrumadeira, a cozinheira e o meu pajem?

- Também fico com eles Sr. Fernandes...

Então o Sr. José Fernandes foi até o quarto e buscou a sua esposa, uma mulata mineira de Diamantina, gorducha, e perguntou:

- Sr. Trancoso, essa é a minha esposa, o senhor também vai querer requisita-la em nome do Príncipe Regente?

O Diretor da Balança Real olhou, olhou e disse:

- Infelizmente a autorização do rei não permite isso. Se fosse permitido eu...

- Eu te enfiava uma faca na cara! Gritou a mineira gorducha... interrompendo a fala do Sr.Trancoso.

A tarde, neste mesmo dia, o Sr. José Fernandes, tendo perdido sua mansão, foi até ao Convento do Carmo (na atual Rua do Carmo), onde Dona Carlota Joaquina estava instalada provisoriamente e disse a ela:

- Senhora, a residência mais bonita de Botafogo está a sua disposição, com mobília, escravos e serviçais, permita que a ofereça a vossa majestade!

- Aceito! Respondeu Carlota.

No dia seguinte pela manhã, Trancoso e toda a sua família saíram de carruagem pela Estrada do Boqueirão da Glória (aproximadamente o que é hoje a Rua da Glória), entraram pela Estrada do Catete; Trancoso, todo satisfeito e orgulhoso chegou na chácara e deu de cara com a Princesa já instalada em sua nova residência.

- O que fazem aqui? Perguntou Dona Carlota a Trancoso.

- Beijar a mão de vossa majestade gaguejou o funcionário do erário da coroa.

- Ora, vá pentear macacos! Esbravejou a princesa. Estou cheia de rapapés e "beija-mãos"; ponha-se daqui pra fora com sua tropa e não me apareça mais aqui.

O Chalaça.

Era sabido por todos das aventuras amorosas de Carlota Joaquina, amorosa, é uma maneira de dizer, pois ao que se saiba era só sexo, nada mais. Além do mais ela representava constante perigo a autoridade do príncipe. O regente conseguia espiões para vigia-la e a princesa subornava outros tantos para estar sempre abastecida de informações do que ocorria no Palácio Real e na Quinta da Boa Vista.

É aí que entra o Sr. Francisco Gomes da Silva que tinha o apelido de Chalaça (chalaça=Dito de zombaria. 2. Dito picante. 3. Frase graciosa e satírica. Fonte: Dicionário Michaelis), sua alcunha seria o equivalente hoje em dia apelidar alguém de Palhaço. Ele, a princípio trabalhava para Carlota, mas depois foi pressionado pelo regente e passou a espionar sua mulher para ele; depois de vários relatórios feitos por Chalaça sobre as atividades sexuais da esposa, o príncipe regente teria em certa ocasião dito em público:

"...Na vida de Carlota, a moralidade morreu...".

Francisco Gomes que era filho do ourives da casa real, espionava Carlota a partir de suas idas e vindas a Chácara de Botafogo (também conhecida como Palácio de Botafogo), que era a residência da princesa. Ele era reposteiro do paço, cargo que cuidava do equipamento decorativo das residências oficiais do rei. Tendo o espião Chalaça descoberto muitas das peripécias sexuais de Carlota, relatou tudo ao marido Dom João; Carlota então foi tomada de um ódio figadal pelo puxa-saco do rei e seu traidor.

Certa vez Dona Carlota Joaquina subornou uma criada de sua filha, a princesa Maria Teresa para espionar o Chalaça; eis que essa criada, descobriu que de 13:00 ás 14:00h da tarde, horário da sesta do rei e dos príncipes; Francisco Gomes o Chalaça se encontrava com a dama de honra da casa real Eugênia Costa (que era casada com Antonio Costa fornecedor comercial do Palácio Real) para seções de sexo na salinha de costura da princesa Maria Teresa.

Foi numa quarta-feira a tarde que Dona Carlota Joaquina montou em um de seus cavalos e, saindo pela Estrada do Catete (atual Rua do Catete), cruzou o Largo do Machado, entrou pela Estrada do Boqueirão da Glória (atual proximidades da Rua da Glória); a direita ela tinha um caminho mais longo, porém mais saudável, beirando a Praia do Russel (atual Avenida Beira Mar e Aterro do Flamengo), a Praia Areia de Espanha (atual Avenida Augusto Severo e Monumento aos Pracinhas), e logo chegaria ao Paço (na atual Praça XV), mas, ela preferiu encurtar caminho, passando pelo fétido brejo próximo ao aqueduto dos Arcos da Lapa e tomando a Rua da Ajuda, e assim, num átimo como se dizia na época ela saiu da Chácara de Botafogo e apareceu nos aposentos do rei seu marido.

- João, disse Carlota, você mandou Francisco Gomes seu criado de confiança para me espionar e, confiando nele, disse que a moralidade em mim, havia morrido, agora vou lhe mostrar que essa tal moralidade que você tanto preza também é moribunda aqui no palácio. Quer Ver? Vamos até ali, na sala de costura de nossa filha.

- Você perdeu o juízo Carlota?

- Vamos ver, vamos ver... Respondeu Carlota.

O rei, vestindo roupão e chinelos, dirigiu-se a sala de costura. Lá estavam os dois amantes, Chalaça e Eugênia num canapé de jacarandá (pequeno e estreito sofá, em geral estofado com palhinha), no exato momento em que Francisco apertava contra o seu peito os gordos seios da dama de honra da casa real.

- Que canalhice é essa? Gritou o rei indignado com a cena.

- Perdão senhor, perdão! Disseram os dois ao mesmo tempo, de joelhos e tentando beijar as mãos de Dom João.

- Retirem-se para os seus aposentos! Isso é uma vergonha! Querem transformar o palácio num bordel? Gritou o rei enquanto os amantes se recompunham.

- João, disse Carlota Joaquina ao esposo, fico satisfeita do seu empregado de confiança ter dado uma grande demonstração de comportamento moral, te deixo aqui neste suave recanto de moralidade e volto para a minha casa, paraíso de devassidão segundo seus espiões. E sorrindo cinicamente saiu, voltando a Chácara de Botafogo.

O rei ficou muito contrariado com o episódio, não que ele não soubesse que coisas semelhantes ocorriam por todo o palácio, mas sim por ter presenciado e de Carlota ter sabido antes dele dos amantes na saleta de costura. Ele não gostava dessa devassidão, mas tolerava, por não ter muito o que fazer.

No dia seguinte ao ocorrido, João soube que Chalaça e Eugênia haviam fugido do palácio para uma chácara no Cosme Velho (hoje um bairro próximo ao Bairro do Catete de onde sai o bondinho para o Corcovado e o Cristo Redentor; na verdade, bem próximo de onde ficava a chácara de Dona Carlota). Ele mandou chamar o Ministro Thomaz Antonio.

- Thomaz, disse o rei, deu-se ontem aqui, um fato vergonhoso e impróprio desta casa. Surpreendi o reposteiro Francisco Gomes da Silva abraçado e aos beijos com a dama Eugênia, e acabo de saber agora que ambos fugiram deste Paço. Eles não podiam continuar no serviço e eu pretendia despedi-los simplesmente, sem escândalo. Mas diante do que aconteceu eu punirei o sedutor. Fiz esta minuta. Leve-a ao corregedor do crime e que o castigo se torne público como público já é o escândalo que esse malandro provocou.

Dois dias depois Carlota Joaquina, na sua residência de Botafogo, recebia a visita da filha Maria Teresa que lhe levava um exemplar da Gazeta do Rio de Janeiro.

- Então, filha, que novidades há no Paço?

- A maior de todas é o rapto da Eugênia Costa. Ela foi seduzida pelo reposteiro Francisco Gomes, e, tiveram a petulância de erigir minha saleta de costura, enquanto dormíamos a sesta, em templo de amor.

- E o que aconteceu ao Gomes?

- Ah! O Gomes foi bem castigado. Leia isto na “Gazeta do Rio”. Trouxe-lhe o jornal, porque sei que há de agradar-lhe uma notícia.

Pegando o jornalzinho oficial, Carlota Joaquina, gozando um de seu prazeres, que era a vingança, leu pausadamente, em voz alta:

“Sr. Corregedor do crime. 

- Não devendo ficar impune o desatino em que caiu o reposteiro da Câmara Real Francisco Gomes da Silva, de aleivosamente aliciar e raptar uma dama de honor, é el-rei nosso senhor servido que vossa mercê faça intimar o sobredito reposteiro que não entre mais no Paço e que deve sair para fora da Corte, numa distância de dez léguas (seriam cerca de 60 Km hoje em dia. Nota do autor), até segunda ordem. O que participo a vossa mercê para que assim o execute. Deus guarde a vossa mercê. Thomaz Antonio.”

(mais tarde Chalaça se "exilou" em Itaboraí, hoje, uma cidade a cerca de 40 km do centro do Rio de Janeiro, mas que na época ficava muito distante, pois não havia a Ponte Rio-Niterói, que hoje atravessa a Baía de Guanabara fazendo com que o percurso entre o Rio e Itaboraí tenha se encurtado muito).

- Aí está, minha filha, como o rei, seu pai e meu marido, sem o querer, reconhece nos seus protegidos e meus inimigos, a devassidão e imoralidade que eles me atribuem. Eu, uma devassa, eles uns santos... Olha, minha filha, cá e lá más favas há. Ainda tenho esperanças de ver o favorito Lobato desmascarado. E há de ser, se Deus quiser... (Lobato foi eleito inimigo mortal de Carlota desde 1805 quando ele através de uma denúncia do Frei Franciscano Antonio de Andrade anunciou ao príncipe regente a tentativa de golpe de Carlota)

Era assim que a princesa cuidava de seus inimigos.

 

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